A ATITUDE ASHANINKA

“Quero falar da história da nossa luta pela natureza. A gente mora na fronteira com o Peru, fazemos fronteira com a Reserva Extrativista do Alto Juruá, com o Parque Nacional da Serra do Divisor, com um assentamento do INCRA e com oito terras indígenas que ficam na faixa de fronteira, que faz o limite da terra.

 Benki Pianko

[...] Minha luta com a comunidade Ashaninka foi libertar meu povo de uma escravidão que vinha sofrendo antes da nossa demarcação, pelos madeireiros, pelos fazendeiros, pelos pecuaristas, pelos pescadores e pelos caçadores que vinham matando nossos animais. Em 1992, quando demarcamos nossa terra, nós tínhamos uma grande devastação. Nós trabalhamos para recuperar todos os pastos que tinham na nossa terra. Recuperamos todas as nossas nascentes de todos os igarapés com manejo de fauna. Nós criamos o manejo de piscicultura nos rios e lagos no tempo da desova. E a gente fez um plano de manejo de uso dos recursos, onde a gente pudesse descobrir a riqueza de nossa cultura.

Então eu entrei profundamente nas raízes, no mundo espiritual, para saber o que nosso povo tinha de sabedoria, colocando os mais velhos para ensinar os mais novos. E colocando os mais novos para refletirem na mente dos mais velhos aquilo que queriam alcançar no futuro.

Eu abri esse diálogo com a juventude, com as crianças. Peguei as crianças com 5 anos, com 3 anos de idade. Assim como meu avô me pegou com 2 anos de idade para me entregar um compromisso, eu comecei a trabalhar as crianças. Hoje já tem entre 20 e 25 anos e são lideres que comandam a integração que a gente queria fazer na nossa terra: a recuperação, o cuidado pelos nossos conhecimentos tradicionais, pela ligação que a gente tem com a espiritualidade, a defesa da mãe terra, a defesa das nascentes das águas.

Assim criamos um trabalho que hoje é exemplo na nossa região. A gente estava bem na nossa terra, mas o entorno não estava bem. Havia uma grande preocupação com a invasão das madeireiras, dos caçadores, que invadiam nossa terra para tirar nossas árvores, para tirar nossos animais.

Dei a vida para defender nosso território, saí da nossa aldeia para cumprir essa missão e levar essa mensagem para o mundo, para o governo e defender o direito dos povos. Começamos uma política para o entorno. Criamos GTs transfronteiriços. Criamos todo um mosaico de trabalho pela fronteira, com os povos indígenas que moram do lado do Peru. Levamos isso ao Presidente Lula e ao Presidente Toledo. Pensávamos que nós só iríamos estar bem se o entorno estivesse bem e assim criamos o Centro Yorẽka Ãtame, Centro de Saberes da Floresta, onde hoje a gente faz a difusão de práticas ambientais e também trabalha o desenvolvimento sustentável com a biodiversidade. De maneira sincera e correta para que tudo possa ser cuidado por cada um de nós.

[...] Nós somos responsáveis por aquilo que alimenta nossos filhos, nós somos responsáveis por aquilo que Deus deixou e nós estamos destruindo. Então vamos ter que cuidar da nossa terra, das nossas nascentes. Porque nós sem água não somos nada. Sem água não tem vida na terra. A água é a fonte de todos os nascimentos. Nada que é seco brota. Mas onde existe água, nasce. Então a ligação da água está em todos esses seres que nos transforma e nos transborda de vida. [...]

Respeito todas as crenças da terra, porque cada crença é um poder e em cada poder não existe mais de um Deus. É um só. E para ele é que nós vamos destinar o nosso espírito”.

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