A ESTÓRIA DE MÃE VAL

“Bom dia! Todos já me conhecem, sou a Mãe Val, sou da geração Bantu. Sou coordenadora geral de uma entidade sem fins lucrativos que trabalha com crianças, adolescentes e idosos em Salvador, Bahia. Sou conselheira de uma área de preservação ambiental, o Parque de São Bartolomeu, um parque que têm origem indígena e africana.

Eu gostaria aqui de pedir permissão aos donos da nossa terra mãe brasileira que foram e continuam sendo os índios. Torno a agradecer o acolhimento, o companheirismo, o compartilhamento existente entre os indígenas e os meus antepassados (nosso povo Africano). Fico muito comovida quando falo dos meus antepassados porque eles lutaram para nos deixar esse legado, para que possamos dar continuidade às nossas lutas. Essas lutas existem, nós ainda não alcançamos o que, de fato, nosso povo merece e precisa.

Eu vou contar aqui para vocês a história da minha missão aqui na Mãe Terra, pedindo permissão a Oxum:

Valdeci ainda no ventre de sua mãe já tinha uma missão na Terra a cumprir. Nasci ‘empelicada’ e a parteira não estava conseguindo fazer o parto. (…) Foi necessária a presença espiritual do Orixá que regia a minha cabeça se manifestar para que eu viesse ao mundo. De posse do seu corpo, ele concretizou o parto da minha mãe e eu vim à terra muito feliz e agradecida a ele por isso.

Cresci. Minha mãe não tinha boas condições de vida; vivíamos em um bairro periférico. Com 13 anos de idade, tive que ser baiana de acarajé para ajudar minha mãe a sustentar a família. Vendia acarajé, constitui uma família, fui pra feira de São Joaquim, trabalhei anos na feira. Eu já estava cansada, eu sofria muito. Mulher de um policial militar, passei por muita violência doméstica, ao ponto dele incendiar a minha casa e eu ficar na rua com quatro crianças. Eu procurava um meio de me libertar desse sofrimento e todos os terreiros diziam “Você tem um cargo pra assumir”. E eu não sabia o que era um cargo “Gente o que é cargo? Pelo amor de Deus, eu preciso parar de sofrer”. Passei pelas igrejas evangélicas, por todas as existentes em Salvador, apesar de ter nascido no catolicismo; passei por centro espírita, e minha última opção foi a religião de Matriz Africana que é o Candomblé. Resolvi enfrentar o Candomblé. Existem várias pessoas aqui e várias outras no nosso país e fora que têm um pensamento distorcido do que é o Candomblé, de que é para fazer o mal às pessoas. Eu, tanto quanto essas outras pessoas, também pensava dessa maneira. Mas graças a Deus e graças a Olorum, esse orixá me trouxe outra versão do que é o Candomblé. É uma religião igual a outra qualquer e veio para a Terra para nos proteger, nos defender,  nos dar amor, nos apoiar, para facilitar a nossa vida nessa terra. Eu tive que aceitar o orixá. Ele abriu o terreiro para fins sociais, onde nós trabalhamos facilitando a vida do ser humano, minimizando o sofrimento daqueles que não tem condições, nem pensamentos, nem discernimento para buscar seus direitos.

No meu tempo de adolescência eu não tive chance de estudar porque a minha mãe não tinha condições. Hoje, esse orixá me presenteou com o maior sonho da minha vida, que é ser doutora. Estou no décimo semestre de Direito, estou me formando em dezembro (2011). Pretendo ser juíza para contemplar os meus irmãos que não tem acessibilidade à justiça, onde os nossos juízes são comprados, e não pensam no pequeno e sim no maior, no que rende mais. Sinto necessidade do meu povo me ter como Doutora, como advogada, para lhes dar a possibilidade de acessibilidade à justiça.  Porque é de justiça que nós precisamos, sem justiça não conseguiremos atingir os nossos direitos, não conseguiremos sequer caminhar com dignidade. Precisamos dar dignidade ao nosso povo da baixa renda, a camada mais humilde, a camada desprovida da assistência dos poderes públicos.

Eu parabenizo a companheira Maria Alice por esse momento ecumênico, de muita luz, paz e amor, onde nós percebemos no rosto de cada um de vocês a humildade. O meu terreiro sempre deixou claro para os seus filhos que existem três coisas no mundo que precisamos ter “fé, humildade e amor ao próximo, fazer o bem e não olhar a quem”.

A minha história é uma história igual a muitas outras. Sei que em cada país existe alguém com uma história como a da Mãe Val. Passei por muitos problemas, mas estou aqui; perdi um filho para a empresa do narcotráfico e ganhei-o para Deus. Tive que me enveredar e ser conselheira de Direitos Humanos do Município de Salvador, para não ver a minha casa invadida por policiais. E hoje, minha missão é em busca dos direitos das nossas crianças, porque como disse Pitágoras “Educai as crianças para não precisar punir os Homens”. E precisamos de educação de qualidade, uma educação igualitária e não com tantas diferenças como a que vimos enfrentando. É por meio de projetos que eu pago a minha faculdade particular. Não tive acesso a UFBA (Universidade Federal da Bahia) que é uma universidade pública e quando a gente vai fazer um levantamento ela se torna privada. Mais privada até do que as particulares. Mas o importante é que eu estou aqui junto com vocês, lutando pelos nossos direitos, pela nossa vida que é a água. Eu venho lutando dentro da Secretaria Estadual do Meio Ambiente – SEMA – do nosso país, para a preservação dos nossos rios, das fontes, das bacias, não só da Bacia do Cobre, da qual sou conselheira, mas de todas as outras. Eu moro em um subúrbio, numa área privilegiada. Do lado esquerdo, nós temos a orla marítima e do lado direito, nós temos cachoeiras, rios, fontes, lagoas, só falta a preservação. Infelizmente os poderes públicos não contribuem conosco.

A minha entidade foi tombada como Patrimônio Estadual Imaterial, mas a gente olha para o lado e diz “O que significa esse tombamento? Cadê o recurso para trabalhar em prol do nosso povo?”. O meu terreiro foi tombado como patrimônio cultural da Humanidade e eu pergunto “Cadê o recurso para que possamos dar uma vida digna a nossa comunidade?”. São muitos sonhos, é só fazer igual o pai Ogum  que diz ”Tenha fé, e faça a sua parte”.

Um canto para finalizar:

“Filho de ogum luta contra a escravidão,

vem trazendo suas raízes cantando esse refrão:

Negro, negro, negro.

O nosso sonho ainda não se realizou.

Negro, negro, negro.

Acorda, acorda, nosso sonho não acabou.

Obrigada”.

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